Esportes com raquete

Quando o assunto é viver mais, a ciência tem uma resposta cada vez mais clara: o esporte praticado importa tanto quanto o simples fato de se movimentar.

Um estudo inédito publicado em 2024 na revista GeroScience resolveu investigar essa questão em uma escala jamais vista, analisando dados de 95.210 atletas de 44 modalidades esportivas diferentes, espalhados por 183 países.

O resultado foi um verdadeiro raio-X da longevidade no esporte de alto rendimento, revelando que nem todas as atividades físicas são iguais quando o objetivo é prolongar a vida. E, entre todas elas, os esportes com raquete — com o tênis em posição de destaque — surgem como uma das escolhas mais consistentes e benéficas para homens e mulheres. Acompanhe!

O que o estudo da GeroScience revelou sobre os atletas?

A maior base de dados já analisada sobre esporte e longevidade

Publicado em agosto de 2024 pelos pesquisadores Abdullah Altulea, Martijn G.S. Rutten, Lex B. Verdijk e Marco Demaria, o estudo Sport and longevity: an observational study of international athletes trouxe uma contribuição monumental para a área.

A equipe coletou informações de atletas nascidos entre 1862 e 2002, o que permitiu uma análise histórica robusta sobre como diferentes modalidades impactam a expectativa de vida. Para cada esporte, os pesquisadores calcularam a diferença entre a idade de morte do atleta e a expectativa de vida da população de referência de seu país, ajustando os dados para fatores como sexo, ano de óbito e nacionalidade.

Os resultados foram surpreendentes e, em muitos casos, contraintuitivos. Enquanto alguns esportes se mostraram extremamente benéficos para a longevidade, outros apresentaram associações negativas, reduzindo a expectativa de vida dos atletas. Entre os homens, os esportes com raquete — categoria que inclui o tênis e o badminton — apareceram com uma associação consistente e positiva, com um ganho médio de 5,7 anos de vida adicional (intervalo de confiança de 95% entre 5 e 6,5 anos). Para as mulheres, o benefício também foi significativo, com 2,8 anos extras (intervalo de confiança de 95% entre 1,8 e 3,9 anos).

A grandeza da amostra — 95.210 observações, sendo 95,5% do sexo masculino — confere ao estudo um poder estatístico raramente visto na literatura. Isso significa que os achados não são fruto do acaso, mas refletem padrões reais e mensuráveis que atravessam décadas e continentes. E o tênis, como o principal representante dos esportes com raquete, sai fortalecido dessa análise, consolidando sua posição como uma das modalidades mais inteligentes para quem deseja não apenas competir, mas viver mais.

Os campeões da longevidade entre os homens

Entre os atletas do sexo masculino, o pódio da longevidade trouxe algumas surpresas. O salto com vara liderou a lista com um impressionante ganho de 8,4 anos de vida (95% CI [6,8; 9,9]). Em segundo lugar, a ginástica apareceu com 8,2 anos adicionais (95% CI [7,4; 9]). Na sequência, esgrima e tiro empataram com 6,6 anos cada. Esses números colocam os esportes com raquete em uma posição de destaque, mas não isolada — eles compartilham o topo com modalidades que exigem precisão, controle corporal e, curiosamente, baixo impacto cardiovascular contínuo.

O que esses esportes têm em comum? A hipótese dos pesquisadores é que a combinação de características aeróbicas e anaeróbicas de cada modalidade pode ser a chave para explicar os resultados. Esportes que alternam momentos de alta intensidade com pausas — como o tênis — parecem oferecer o melhor dos dois mundos: estímulo cardiovascular sem o desgaste excessivo de esportes de contato ou de resistência pura. Além disso, a ausência de impacto repetitivo violento, comum em esportes como futebol americano ou rúgbi, pode preservar as articulações e o sistema nervoso ao longo de décadas.

Por outro lado, o estudo também revelou o lado sombrio do esporte de alto rendimento. O sumô apareceu com uma redução de 9,8 anos na expectativa de vida (95% CI [-11; -8,6]), seguido pelo vôlei com -5,4 anos (95% CI [-7; -3,8]). Esses dados sugerem que o excesso de peso corporal, os impactos repetidos e a natureza extenuante de algumas modalidades podem anular os benefícios do exercício, transformando o esporte em um fator de risco em vez de proteção. Para os esportes com raquete, felizmente, o saldo é amplamente positivo.

O tênis como carro-chefe dos esportes com raquete

Por que o tênis se destaca entre as modalidades de raquete

Embora o estudo da GeroScience agrupe tênis e badminton sob o guarda-chuva dos esportes com raquete, é o tênis que, na prática, concentra a maior parte dos praticantes e da atenção midiática mundial. E há razões objetivas para isso. O tênis combina, em uma única atividade, exercício cardiovascular de alta intensidade, fortalecimento muscular, estímulo cognitivo e interação social — uma combinação rara que poucos esportes conseguem oferecer de forma tão equilibrada.

A dinâmica da quadra exige arranques explosivos, paradas bruscas, mudanças de direção e golpes que recrutam praticamente todos os grupos musculares. Essa variedade de estímulos mantém o corpo em constante adaptação, evitando o desgaste por repetição excessiva e promovendo um condicionamento físico completo. Ao mesmo tempo, a necessidade de antecipar o movimento do adversário, planejar estratégias e tomar decisões em frações de segundo ativa áreas cerebrais associadas à memória, à atenção e à função executiva — benefícios que vão muito além da longevidade física.

Para quem vive em Belo Horizonte, a boa notícia é que a cidade oferece diversas opções para quem deseja começar. Uma aula de tênis em BH pode ser o primeiro passo para colher os benefícios que os esportes com raquete proporcionam, seja para quem busca competir em alto nível ou apenas para manter a saúde em dia. O importante é dar o primeiro passo e permitir que o corpo e a mente se beneficiem dessa prática milenar.

Os números do tênis no contexto da longevidade

Os 5,7 anos adicionais para homens e 2,8 anos para mulheres, atribuídos aos esportes com raquete no estudo da GeroScience, ganham ainda mais relevância quando comparados a outras modalidades populares. Enquanto o tênis aparece com esses números expressivos, esportes como futebol, basquete e handebol apresentaram associações mínimas ou mesmo negativas com a longevidade no estudo. Isso significa que, para um atleta de alto rendimento, a escolha da modalidade pode fazer uma diferença de quase uma década na expectativa de vida.

É importante ressaltar que esses dados se referem a atletas profissionais, que treinam em intensidades muito superiores às de um amador. No entanto, os princípios subjacentes — a combinação de esforço aeróbico e anaeróbico, a ausência de impactos violentos e a natureza social do esporte — são aplicáveis a qualquer nível de prática. Para o praticante recreativo, os benefícios dos esportes com raquete podem ser ainda maiores, já que o estresse crônico do alto rendimento é substituído pelo prazer do jogo e pela convivência com outros jogadores.

Outro ponto que merece destaque é a consistência dos resultados entre os gêneros. Enquanto muitos esportes mostraram benefícios apenas para homens, os esportes com raquete foram uma das poucas categorias com associação positiva e significativa também para as mulheres. Isso sugere que a natureza do tênis — que combina técnica, estratégia e condicionamento físico sem depender exclusivamente de força bruta — é particularmente adequada para ambos os sexos, oferecendo uma janela de oportunidade igualitária para a longevidade.

O que explica o sucesso dos esportes com raquete

A ciência por trás da longevidade no tênis

Os pesquisadores do estudo da GeroScience levantaram a hipótese de que os esportes com raquete beneficiam a longevidade por combinarem características aeróbicas e anaeróbicas de forma equilibrada. O tênis, em particular, é um esporte de intensidade intermitente: momentos de esforço máximo (como um sprint para buscar uma bola) são seguidos por breves pausas de recuperação (entre um ponto e outro). Esse padrão simula as demandas do dia a dia de forma mais natural do que o exercício contínuo e monótono, treinando o coração para responder a diferentes níveis de estresse.

Além disso, o tênis exige um gasto calórico significativo — uma partida de uma hora pode consumir entre 400 e 600 calorias, dependendo da intensidade —, o que contribui para o controle do peso e a prevenção de doenças metabólicas. A prática regular também melhora a sensibilidade à insulina, reduz a pressão arterial e diminui os níveis de inflamação crônica, todos fatores que impactam diretamente a expectativa de vida. Os esportes com raquete, portanto, atuam em múltiplas frentes, protegendo o organismo de forma abrangente.

Outro fator frequentemente negligenciado é o componente cognitivo. O tênis exige planejamento estratégico, leitura de jogo e tomada de decisão em milissegundos — habilidades que estimulam a neuroplasticidade e podem retardar o declínio cognitivo associado ao envelhecimento. Estudos anteriores já haviam mostrado que esportes que combinam esforço físico com desafio mental tendem a ser mais protetores contra doenças neurodegenerativas, e os esportes com raquete se encaixam perfeitamente nessa descrição.

O fator social como diferencial competitivo

Se os aspectos fisiológicos explicam parte do sucesso dos esportes com raquete, o componente social completa o quadro. O tênis é, por natureza, um jogo de interação — há sempre um adversário do outro lado da rede e, muitas vezes, um parceiro ao lado. Essa dinâmica exige comunicação, respeito, negociação emocional e a construção de vínculos que vão além da quadra. O famoso Harvard Study of Adult Development, que dura mais de 85 anos, comprovou que relações sociais próximas são o fator mais determinante para a felicidade e a saúde ao longo da vida.

O tênis proporciona exatamente esse ambiente de conexão humana. Cada partida é uma oportunidade de interagir, de compartilhar momentos de tensão e alegria, de aprender com o adversário e de fortalecer laços de amizade. Esse aspecto social é particularmente relevante na terceira idade, quando o isolamento e a solidão se tornam fatores de risco tão graves quanto o sedentarismo. Os esportes com raquete, ao promoverem encontros regulares e interações significativas, atuam como um escudo contra esses males silenciosos.

Não por acaso, o estudo dinamarquês Copenhagen City Heart Study já havia apontado o tênis como o esporte com o maior ganho de expectativa de vida — 9,7 anos — entre todas as modalidades analisadas, superando corrida, natação e ciclismo. Os pesquisadores dinamarqueses atribuíram esse resultado, em grande parte, ao componente social do esporte. Os esportes com raquete, portanto, não são apenas exercícios para o corpo, mas também para a alma — e essa combinação parece ser a receita ideal para uma vida mais longa e mais feliz.

Créditos da imagem: https://www.pexels.com/pt-br/foto/close-up-de-raquete-de-tenis-e-sapatos-em-quadra-de-saibro-31054365/